Superstições
No dicionário Antonio Houaiss da língua portuguesa encontramos a seguinte definição para a palavra superstição: “crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas; crendice, misticismo.” ou “crença cega, arraigada e exagerada em alguma coisa, alguma regra ou algum princípio, que se adora ou se segue sem questionar.“
Sto Agostinho, Cidade de Deus 6.9.2, cita que o escritor romano Varrão (+7 a. C.) exprimia muito bem, na sua linguagem politeísta, o que significava superstição ao colocar que : “o supersticioso é o homem que teme os deuses como inimigos, ao passo que o homem religioso os reverencia como pais“
O homem, criatura de Deus dotada de inteligência, com a característica de indagar sobre os diversos fatos conhecidos em busca de explicações e razões para os diversos acontecimentos, de forma contrária a sua natureza, não indaga a respeito da relação de causa e efeito entre o agente da superstição e o fenômeno a ele relacionado. O homem, estranhamente, aceita essa relação como fato indiscutível. Mas o homem, dotado de inteligência como é, não foi feito para aceitar às cegas o que se lhe diz. A autêntica Religião exige a participação da inteligência do homem piedoso. Desta forma precisamos perguntar: “Por que creríamos nas associações de causa e efeito que a superstição nos aponta? O que nos assegura que, por exemplo, a ferradura de cavalo é fonte de felicidade se a colocarmos atrás da porta? Por que “quebrar um espelho” acarretaria desgraça?
Duas seriam as possíveis propostas de respostas a esses questionamentos.
1) A natureza dos objetos explica as relações de causa e efeito que se lhes atribuem
2) O Senhor Deus estabeleceu e revelou tais relações.
Mas estas respostas seriam corretas? Analisemos…
Quanto a primeira tentativa em responder tais perguntas, não parece aceitável aos olhos da inteligência humana, o nexo entre “ferradura atrás da porta” e “felicidade”. Não há um vínculo de causa e efeito . Não há, também, uma relação entre o “trevo de quatro folhas” e a “felicidade”. Entre “derramar o sal na mesa” e o azar, também não há relação. Observa-se, também, que diversas vezes o mesmo objeto aparece associado a realidades contraditórias. Ora o número 13 traz azar, ora sorte, como na Índia, onde é símbolo de próspera fortuna… Ora o “Gato Preto” é símbolo do azar, ora, como na Inglaterra em séculos passados, símbolo da sorte.
Precisamos considerar em que a “voz popular” se baseia ao determinar tais relações. Porém, vamos analisar, primeiro, a segunda possível resposta.
Como vimos que não há um nexo entre as relações de causa e efeito das “superstições”, teria o Senhor Deus as revelado a um vidente? Qual o ponto de vista cristão diante dessa hipótese?
Esta pressuposta comunicação só se poderia dar mediante uma “revelação particular”, pois a revelação pública, que é a manifestação das verdades que constituem o patrimônio sagrado da fé e impõe-se a todos os cristãos, encerrou-se com a geração dos apóstolos. Continuam a existir, no entanto, revelações particulares, isto é, a comunicação de verdades que se dirigem a uma pessoa só ou a grupos particulares de fiéis, sem se tornar objeto necessário da fé de todos os cristãos. A Igreja admite a possibilidade de tais comunicações, porém as examina com certa severidade. O conteúdo dessas comunicações, nunca se tornará objeto obrigatório da fé de todos os cristãos. Ele só se impõe a quem Deus realmente se manifestou em tal ou tal caso e, como dito, deve ser submetido ao exame da Santa Igreja. Os fiéis devem ser MUITO cautelosos ao admitir pretensas revelações divinas feitas a respeito de determinada oração ou objeto. Na maioria dos casos em que apregoam fórmulas “garantidas”ou “reveladas” pelo Céu, não há senão ilusão e vã superstição. Isto acontece, por exemplo, com as “correntes de orações”, onde o iniciador da corrente manda transmitir a um determinado número de pessoas, durante um determinado número de dias, predizendo enorme benefício. Expectativa sem fundamento! Os fiéis devem se abster também de querer resolver as suas dúvidas abrindo aleatoriamente a Sagrada Escritura e tomando como oráculo divino, para o seu caso, a primeira frase bíblica sobre a qual ponham o dedo. Deus não está obrigado a dar resposta no momento predeterminado pelo homem. Tal prática poderia equivaler ao que se chama “tentar a Deus”, ou seja, exigir do Senhor graças extraordinárias.
Isto tudo que foi analisado mostra-nos que a relação de causa e efeito suposta em toda superstição carece de fundamento objetivo. Então, voltemos a pergunta: “Em que se baseia a “voz popular” ao determinar tais relações?” Ou são origniárias de analogias entre fatos ou são meras normas de educação e prudência! Por exemplo: A superstição relacionada a ferradura do cavalo: acredita-se que em Roma, em tempos passados, as ferraduras de animais eram de ouro ou prata; por conseguinte encontrar uma ferradura equivalia realmente a encontrar um pequeno tesouro. A superstição relacionada ao trevo de quatro folhas: O trevo de quatro folhas é coisa rara. Fizeram então, em tempos passados uma mera analogia entre encontrar o trevo de quatro folhas e encontar “a felicidade”. Outras superstições como “comer com chapéu na cabeça, o diabo se juntaria aos convivas” ou “derramar sal sobre a mesa traz azar” ou ainda “não remendar a roupa no corpo de pessoa viva” ou “não passar a vassoura nos pés da moça solteira senão ela não casa”, como tantas outras, podem claramente ser entendidas como simples regras de boa educaçao e de prudência, as quais “popularmente” foram munidas de sanções supersticiosas para impôr punições com o intuito de evitar que o gesto fosse realizado. O importante é conscientizar-nos que a superstição substituiu a verdadeira fé e para deter a onda das superstições é necessário uma boa formação religiosa dos jovens e adultos de hoje. A ignorância religiosa é a mais prejudicial das ignorâncias pois o senso religioso é inato ao ser humano. Assim sendo, caso o homem não seja devidamente orientado para o verdadeiro Deus, dirige-se naturalmente e inevitavelmente para falsos deuses e ídolos. A superstição é Filha da Insegurança e, nós, cristãos esclarecidos, devemos lutar contra todos os temores excessivos, injustificados e sem razão.
Por fim, recomendamos a todos a leitura do opúsculo Superstições de D. EStêvão Bettencourt O. S. B., no qual baseia-se este texto. O opúsculo pode ser pedido à Escola “Mater Ecclesiae” (tel/fax: (21) 2242-4552)
PASCOM
Paróquia Sto Agostinho – RJ













